Branquitude: o perigo da narrativa única

A luta antirracista e a necessária ampliação de escuta da branquitude a partir de narrativas outras sobre os povos.
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Por Ana Helena Ithamar Passos

O cenário atual das redes sociais se deparou recentemente com mais um conflito de disputa narrativa quando a historiadora e antropóloga, Lilian Schwarcz escreveu, a partir do seu olhar e interpretação, um artigo crítico, na Folha de São Paulo, a respeito do novo trabalho de Beyoncé, Black is a King.

Muito já se foi dito do episódio, não tenho intenção de aprofundar algum debate sobre essa questão, mas quero me debruçar sobre um aspecto, de tantos já revelados deste feito, sobre a branquitude: a necessidade de ampliação do olhar sobre as narrativas outras construídas a partir de diversos referenciais que não o da branquitude. Isso me interessa.

Venho, assim, como todo/as que se dedicam a pensar criticamente a branquitude sendo questionada sobre “o lugar de fala”.

Ilustração: Estevão Ribeiro

Como se comportar perante o debate sobre as questões raciais a partir do lugar de fala branco/a? E, mais – o que motiva para tal escrita – como, efetivamente, construir um caminho outro de educação que seja decolonial* e antirracista?

Em meados da década de 1980, o historiador marxista Eric Hobsbawn, finalizava mais uma de suas obras “longo século XIX” (1789-1914) com palavras esperançosas:

Os indícios de que o mundo no século XXI será melhor não são insignificantes. Se o mundo conseguir não destruir [por exemplo, pela guerra nuclear], a probabilidade será bastante forte (HOBSBAWN, 1995, p.561).

E és que veio o longo século XX, e por muita sorte não morremos em uma guerra nuclear, mas fomos acometidos por tamanha violência que, ao rever suas próprias palavras, o próprio Hobsbawn, admite que vivíamos a beira do abismo no final do século XX.

Assim nos encontramos, desenhado entre duas grandes guerras, com o colapso dos sistemas socialistas, a efetivação real da tecnologia como a nova família de técnicas do sistema capitalista neoliberal e a reprodução da longa duração das estruturas narrativas hegemônicas das relações de raça e gênero.

E, é nesse cenário, que o autor, em outra obra de tamanha relevância, reflete:

As próprias estruturas das sociedades humanas, incluindo mesmo algumas das fundações sociais da economia capitalista, estão na iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar (HOBSBAWN, 1995, p.562).

O passado ocidental precisa ser apenas uma narrativa histórica

Sim, temos de mudar. Concordo plenamente com o historiador inglês Eric Hobsbawn. Mas, em minhas abstrações, fico a refletir sobre que estratégias de mudança estaria o historiador a pensar quando escreveu “Tem de mudar”.

Contextualizando de forma brevíssima e sem nenhum devaneio sobre o legado hobsbawniano, gostaria aqui de pinçar apenas uma questão a ser observada: esse passado humano ao qual faz referência o autor é o passado ocidental.

Essas estruturas das sociedades humanos também referenciada pelo escritor da História, é ocidental. Pois bem, venho fazer uma proposta. Vamos, pois, iniciar um exercício, de construir um “lugar de observação”.

O lugar de observação, ao meu ver, é o espaço possível para a pessoas brancas (re)construírem seu lugar de fala, ampliando a escuta e ajustando a lente do olhar para todas as outras narrativas históricas sobre humanidade que outrora foram completamente invisibilizadas pelo discurso único da História, ou, como nos fala a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (2009), em sua conferência The Danger of the Single Story, o Perigo de uma história única.

Ao professar sobre o perigo da hegemonia de uma única forma de entender a humanidade, relata a escritora, aprisionamos a pluralidade e as particularidades humanas em narrativas homogêneas fundamentadas em preconceitos (Adichie, 2009).

Enquanto branco/as, penso que deveríamos ampliar nossa observação sobre o mundo e entender que histórias outras podem ser a chave de abertura para novas formas de narrativas sobre os povos.

E mais, pode ser também uma excelente reviravolta para analisar a si mesmo, a partir do olhar do outro. Afinal de contas, o que fizeram o/as branco/as todo esse tempo que não desenvolver invenções narrativas sobre o que chamamos de Outro?

Assim, nada mais coerente que, ao se deparar com tantas estórias não-brancas, muitas das vezes narradas em primeira pessoa, revelando os encontros coloniais a partir dos corpos aprisionados por essa colonialidade, o/as branco/as vão (re)encontar sua própria branquitude.

Os ensinamentos das tantas histórias sobre o mundo para o entendimento sobre branquitude

Quem leu Maya Angelou (2018) sabe que ela é um clássico da literatura americana.

Livros que narram estórias negras, racismos, violências e libertação são narrativas universais, mas que, por muitas vezes, são intituladas “apenas” de narrativas negras, muitas das vezes na tentativa de hierarquizar os saberes, distinguindo, de forma depreciativa, narrativas ditas universais das “Outras”. Como se pudéssemos criar um ambiente, dito universal, sobre as histórias dos povos.


E é isso que faz a narrativa hegemônica branca, ao adjetivar como “negra”, “periférica” e/ou “de mulher” as tantas outras histórias sobre civilizações que não fosse narrada pelos seus escritores premiados, que majoritariamente são homens e brancos.

Pois, afirmo, Maya Angelou (2018) é um clássico. Ela abre o caminho para uma narrativa de denúncia das violências raciais cometidas pela política racial americana e revela sentimentos e percepções sobre o ser negro/a conectando milhares de pessoas que, pelo mundo afora, sofreram e sofrem da perpetuação dessa violência colonial.

“Todo mundo que eu conhecia respeitava essas leis de costume, exceto as crianças lixentas da pobreza branca. Algumas famílias lixentas da pobreza branca moravam no terreno da fazenda de Momma atrás da escola. Às vezes, um amontoado delas ia para o Mercado, ocupava o único aposento, tirava o ar do ambiente e até mudava os odores conhecidos. As crianças subiam umas nas outras e nos cestos de batatas e cebolas, falando o tempo todo com as vozes agudas como violões cigar box. Elas tomavam liberdades no meu Mercado que eu jamais ousaria ter” (ANGELOU, 2018, p. 44).

Angelou desmantela o dito universal. Escancara aspectos cruéis da operacionalização do racismo pela branquitude.

Ao confrontar gerações, quando aponta que Momma, sua avó que tanto respeitava permitia os excessos cometidos pelas crianças brancas, a escritora nos obriga a observar a longa duração da desumanização dos povos brancos sobre os negros.

Rasga por completo o imaginário de unicidade tão característico da narrativa hegemônica da branquitude e sinaliza que é necessário observar as violências raciais pela perspectiva ampliada das narrativas outras que só uma educação decolonial pode oferecer.

Assim, faço desse exemplo um convite a ampliação do lugar de observação. É preciso construir uma postura crítica ativa para a alteração da estrutura de desigualdade nas narrativas sobre os povos e nas relações de poder que se constituem dessas narrativas.

Construir um “lugar de observar” pode ser um elemento antirracista possível para pensarmos um novo fazer histórico, a partir do clamor por mudanças sugerido por Hobsbawn, mas olhando as tantas outras histórias que a história do século XX a partir do mundo do ocidente não deu conta de contar.

Por fim, digo sempre quando me perguntam sobre: Como podemos construir uma educação antirracista? Para as pessoas brancas, um caminho é: leiam literatura negra, mas observem a revelação da branquitude desvelada nessas narrativas.

Ana Helena Ithamar Passos
Advogada, mestra e doutora em serviço social pela PUC-Rio. Atualmente, pós-doutoranda no Programa Interdisciplinar “Humanidades, Direitos e outras Legitimidades” do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (DIVERSITAS) da Universidade de São Paulo – USP e cofundadora do Instituto Ella Criações educativas.

e-mail: anahpassos@institutoella.com.br


* Segundo Oliveira (2018, p. 101 – 102), Decolonizar, no campo da educação, significa, um práxis com base na insurgência educativa propositiva, em que o termo insurgir representa a criação e a construção de novas condições sociais, políticas, culturais e de pensamento.

Em outras palavras, a construção de uma noção e visão pedagógicas que projeta muito além dos processos de ensino e de transmissão de saber, uma pedagogia concebida como política cultural, envolvendo não apenas os espaços educacionais formais, mas também as organizações do movimentos sociais.

Decolonizar na educação é construir outras pedagogias além da hegemônica. Uma perspectiva de educação decolonial requer pensar a partir dos sujeitos subalternizados pela colonialidade, como índios, negros, mulheres, homossexuais e outros marcadores das diferenças contrapostas às lógicas educativas hegemônicas brancas e eurocentradas.

Referências Bibliográficas
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. The danger of a single story. Palestra proferida no TEDGlobal, jul. 2009. Disponível em: . Acessado em: 07 de ago. de 2018.
ANGELOU, Maya. Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Bauru: Astral Cultural, 2018.
HOBSBAWAN, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
OLIVEIRA, Luiz Fernandes de. Educação e militância decolonial. 1ª edição. – Rio de Janeiro: Editora Selo Novo, 2018.
PASSOS, Ana Helena & PUCCINELLI, Bruno & ROSA, Waldemir. As narrativas hegemônicas como normativas excludentes: raça, gênero e sexualidade. IN REVISTA DO CENTRO DE PESQUISA E FORMAÇÃO / Nº 8, julho 2019.
SOVIK, Liv. Aqui ninguém é branco. Rio de Janeiro, Aeroplano, 2009. _. “Por que tenho razão: branquitude, estudos culturais e a vontade de acadêmica”. In: Revista Contemporânea (UFBA). v.3, no 2, dez 2005, p.159-180.

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