O empoderamento da identidade racial da pessoa negra e Afrocidadanização

Como indivíduos da população negra se percebem, se reconhecem e dão concretude ao seu pertencimento racial, é uma luta travada no cotidiano em um país marcado fortemente pelo mito da democracia racial.
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Uma dimensão fundamental na discussão sobre a questão das desigualdades raciais em suas diversas manifestações, assim como, para o processo de fomento da Afrocidadanização, em seu primeiro alicerce, está no entendimento de como os indivíduos da população negra se percebem, se reconhecem e dão concretude ao seu pertencimento racial.

Essa compreensão é significativamente importante, não só para a percepção dos casos de racismo, mas principalmente, para o processo de luta e combate dessas práticas sociais. Assim, no que se segue, discutiremos, em seus vários aspectos, como se dá o processo de construção, afirmação e empoderamento da identidade racial negra positiva.

Há uma massa de produção sobre relações raciais no Brasil que apontam para as históricas dificuldades que os indivíduos da população negra enfrentam, e enfrentaram, para a construção de uma identidade racial negra.

As razões para estas dificuldades são, naturalmente, de muitas ordens, mas aquela que se nos apresenta como a mais contundente tem a ver com os costumes e habitus cultural de nossa sociedade, fortemente marcado pelo ideal de branqueamento e pelo mito da democracia racial.
Sobre essa pretensa democracia racial, Abdias Nascimento afirma ser:

Uma “democracia” cuja artificialidade se expõe para quem quiser ver; só um dos elementos que a constituíram detém todo o poder em todos os níveis político-econômico: o branco. Os brancos controlam os meios de disseminar as informações; o aparelho educacional; eles formulam os conceitos, as armas e os valores do país. Não está patente que neste exclusivismo se radica o domínio quase absoluto desfrutado por algo tão falso quanto essa espécie de “democracia racial” (NASCIMENTO, 2002, p. 86).

Como se dá o processo de reconhecimento e pertencimento racial?

A construção de identidade racial é um processo social, cultural e político, implicada em relações de poder, a partir de uma dinâmica de identificações construídas através de um vasto conjunto de significações e de práticas discursivas.

Estas últimas são derivadas da posição que o indivíduo se atribui no mundo, implicando sentimentos de pertença e de auto-estima, através dos quais o indivíduo vai se construindo a partir de suas referências culturais e de suas representações, complementando-se em suas relações com os outros nas suas ligações inter-relacionais na sociedade.

Para Stuart Hall (2004), a identidade corresponde a um processo de identificações, constituído por dois aspectos fundamentais: por um lado, é construída na linguagem do senso comum a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo ideal.

Por outro, é vista pela abordagem discursiva, como uma construção, como um processo nunca complementado, como algo sempre “em processo”.

Ilustração: Reg Coimbra


O processo de construção da identidade pode ser entendido também como uma “metamorfose” que “representa a pessoa e a engendra”, e não simplesmente como uma representação da pessoa; uma formulação de um centro estático da dinâmica entre o meio social, a cultura e a subjetividade individual (CIAMPA, 1987, apud, NASCIMENTO, 2003, p. 35).

Para Ricardo Franklin Ferreira (2000, p.47), a identidade é vista como uma categoria, além de pessoal, fundamentalmente social e política, considerada como uma referência em torno da qual o indivíduo se auto reconhece e se constitui, estando em constante transformação e construída a partir de sua relação com o outro.

Portanto, para o autor, a construção da identidade não é uma simples representação do indivíduo, mas “uma dialética sem síntese”, sempre submetida à dinâmica do processo de viver.

Neste processo de construção da identidade fundamentada em uma dinâmica de identificações através da qual o indivíduo se reconhece e constrói a si e a seu mundo, o autor afirma que o indivíduo desenvolve uma identidade com um “sentido de autoria”.

A partir deste “sentido de autoria”, o desenvolvimento da identidade afrodescendente brasileira se dá em quatro estágios fundamentais: submissão, impacto, militância e articulação (FERREIRA, 2000, p. 69-84).

No estágio de “submissão” o referencial através do qual o afrodescendente constrói sua identidade são as crenças e os valores da cultura branca, vista como superior. Neste estágio, o indivíduo se submete a ideologia da visão dominante do mundo, concebendo sua inferioridade racial, desvalorizando e fugindo de sua identificação com o mundo negro.

Ainda neste estágio os problemas étnico-raciais são explicados pelo prisma da “culpabilidade da vítima”, cujas condições sociais e econômicas são encaradas como fruto da inépcia e da falta de capacidade pessoal dos indivíduos negros.

No estágio de “impacto” a identidade referenciada pelos valores brancos, modelada e sedimentada a partir do processo de socialização, que deixa a pessoa centrada e articulada nas situações da vida, começa a desestabilizar, através de experiências nas quais torna-se impossível negar a não-aceitação por parte do mundo branco, sugerindo nova direção no sentido de transformação ou ressocialização.

Nessa perspectiva, o autor propõe três fases nesta transformação:

1- A primeira é caracterizada pelo momento de impacto que ocorre com a tomada de consciência da discriminação, da não-funcionalidade da visão do branco como referência para a construção da estrutura pessoal e da necessidade do desenvolvimento de uma “nova identidade” racial;

2- A segunda fase, caracteriza-se pela luta para o desenvolvimento desta nova identidade, pelo abandono da identidade que vinha sendo construída no estágio anterior —de submissão—, com o reconhecimento da importância das qualidades étnico-raciais;

3- Na terceira fase, a pessoa passa a agir como se existisse uma “identidade negra” já definida externamente e que deve ser encontrada. Enfim, o estágio de “impacto” é uma fase intermediária que determina a morte do estágio de “submissão” e o afrodescendente, ou a pessoa “afrocentrada”, começa a emergir.

O reconhecimento de uma identidade racial referenciada em valores africanos, a ser desenvolvida, sinaliza a entrada da pessoa no estágio da “militância”.

A fase da “militância” é caracterizada pelo processo de intensa mudança na subjetividade do negro, no qual vão sendo demolidas velhas perspectivas e, ao mesmo tempo, passa a se desenvolver uma nova estrutura pessoal, referenciada em valores étnico-raciais de matrizes africanas.

Até esta fase, o negro estava submetido a uma “visão do negro” determinada pela cultura branca.

Como decorrência, sua maneira de agir era estereotipada, sendo a referência da pessoa negra uma referência “de grupo” definida externamente, levando-a a pensar, sentir e comportar-se de acordo com padrões idealizados por outros.

Portanto, o estágio da “militância” é importante para o desenvolvimento da identidade, porque a participação do militante favorece a recuperação dos valores da cultura e da história do negro para, mediante um processo de socialização, levá-lo a desenvolver uma identidade e uma auto-estima mais positivas.

Por fim, todos estes estágios definidos pelo autor, levam o indivíduo a desenvolver uma perspectiva afrocentrada não-estereotipada, com atitudes voltadas para a valorização das qualidades referentes à negritude, mais expansivas, mais abertas e menos defensivas.

Neste último estágio, definido como o da “articulação”, há o desenvolvimento de um novo processo de identificação, em que as matrizes africanas são salientadas.

A população negra torna-se o principal grupo de referência ao qual o indivíduo pertence, sendo seu vínculo com esse grupo determinado por qualidades do próprio grupo e, não mais, exclusivamente, por fatores externos a ele.

Ferreira (2000) destaca que esta nova identidade é construída a partir de três dinâmicas: (1) defender e proteger a pessoa de agressões psicológicas; (2) prover um sentido de pertença e ancoradouro social e (3) prover uma fundação, ou ponto de partida, para as transações com pessoas de culturas diferentes daquelas referenciadas em matrizes africanas.


Leia também: Outro Olhar: por uma práxis antirracista e promovedora da Afrocidadanização

Leia também: Mudança de imagem: a valorização da identidade da pessoa negra como Afrocidadanização


A dinâmica das identificações e o empoderamento racial

De acordo com Nascimento, (2003, p. 96-97), esta ideia de construção de uma identidade afrocentrada deriva da “teoria do centro”, que postula a necessidade de explicar a localização do sujeito, que não está referida a um lugar geográfico especifico, mas a uma condição e reconhecimento de pertencimento a determinado grupo social, que possibilita desenvolver uma postura própria a cada grupo social e fundamental na sua experiência histórica e cultural.

Nesta abordagem o conceito de “lugar” é fundamental porque dispensa o enfoque sobre a condição racial do sujeito, ou seja, “quem se localiza no ‘lugar’ da abordagem afrocentrada não precisa ser afrodescendente, assim como nem todo afrodescendente se posiciona nesse “lugar”.

Ainda para a autora, a construção da identidade afrocentrada é o que possibilita o conceito de “agência”, que denota protagonismo: o exercício da capacidade de pensar, criar, agir, participar e transformar a sociedade por força própria. A construção da identidade afrocentrada é o que possibilita essa “agência”, pois “o âmago do ‘racismo’ está numa sociedade hierárquica que se recusa a reconhecer a agência africana” (ASANTE, 1998, p. 8, apud, NASCIMENTO, 2003, p. 98).

Enfim, compreendida como uma dinâmica de identificações fundamentadas no “sentido de autoria” e de “agência”, a “identidade racial” é uma categoria central para se compreender como o indivíduo da população negra se constitui; constrói a sua auto-estima e se posiciona no mundo, que serve de referencial para as suas ações e atitudes.

A dinâmica da identificação racial no Brasil requer que se reconheça a diversidade de termos utilizado em seu cotidiano onde já se falou de 136 denominações raciais distintas, evidenciando a singularidade de como se definem racialmente os brasileiros.

Certamente pertencemos à “raça” humana, mas temos de compreender que as relações sociais baseadas em hierarquias e subordinações definem quem são os indivíduos que pertencem às sub-raças e determinam seu espaço na sociedade.

Nesse processo, pensar a identidade racial negra, é propor a construção e a afirmação de um sentido de pertencimento, decorrente de uma formação social, cultural e política, que tem a ver com o reconhecimento e a valorização das características positivas pertinentes a população negra, através das quais se tornem indivíduos afroconscientes e, como resultado disso, busquem materializar a Afrocidadanização.

Referências bibliográficas
FERREIRA, Ricardo Franklin. Afrodescendente: identidade em construção. São Paulo: EDUC; Rio de Janeiro: Pallas, 2000.
FONSECA, Denise. Identidade cultural e desenvolvimento sustentável: uma experiência Comunitária de Sucesso. In: FONSECA, D.P.R. e Siqueira, Josafá Carlos de (Orgs.). Meio Ambiente, cultura e desenvolvimento sustentável: somando esforços, aceitando desafios. Rio de Janeiro: Sette Letras, Historia y Vida, 2002, p. 169-184.
GUIMARÃES, Reinaldo da Silva. Afrocidadanização: ações afirmativas e trajetórias de vida no Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Selo Negro, 2013. 208 p.
HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Tomaz Tadeu da Silva (org.). Stuart Hall, Kathryn Woodward. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004, p.103 – 133.
NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. [Segunda edição in: O Brasil na mira do pan-africanismo. Salvador: Ceao/Edufba, 2002.].
NASCIMENTO, Elisa Larkin. Sortilégio da cor: identidade, raça e gênero no Brasil. São Paulo: Summus, 2003.

Deixe seu comentário:

redacao@sesonoticias.com.br

Sugestão de pauta

Assuntos Relacionados

Veja também

Siga nosso Telegram

Acompanhe notícias do Serviço Social de todo o Brasil.