Prevenção do suicídio na prática: como o assistente social deve acolher e encaminhar?

Entenda como identificar situações urgentes, realizar uma escuta qualificada, preservar o sigilo e acionar a rede de saúde mental.

Uma pessoa afirma durante o atendimento que não deseja mais viver. O assistente social deve perguntar diretamente, avisar a família ou acionar uma emergência?

Essa situação pode ocorrer no hospital, no CAPS, no CRAS, no CREAS, na escola, na empresa ou em diferentes espaços institucionais.

Diante dessa fala, o profissional pode sentir medo, insegurança e dúvida. Afinal, uma decisão precipitada pode aumentar o sofrimento ou deixar a pessoa desprotegida.

No entanto, o relato não deve ser ignorado. A prioridade é acolher, compreender a urgência e mobilizar os recursos disponíveis para proteger a vida.

Além disso, o atendimento precisa respeitar as competências profissionais, o sigilo e os protocolos da instituição.

O suicídio não pode ser explicado por uma única causa

Antes de tudo, é necessário compreender que o comportamento suicida é um fenômeno complexo. Portanto, não deve ser associado somente a um diagnóstico psiquiátrico.

Problemas financeiros, desemprego, discriminação, violência, conflitos familiares, isolamento, doenças crônicas e perdas importantes podem intensificar o sofrimento.

Da mesma forma, barreiras no acesso aos direitos e aos serviços públicos podem agravar situações que já apresentam vulnerabilidades.

A Organização Mundial da Saúde destaca justamente essa multiplicidade de fatores sociais, econômicos, relacionais e individuais.

Nesse contexto, o assistente social possui uma contribuição importante.

O profissional pode identificar desproteções, articular serviços e fortalecer vínculos familiares e comunitários.

Entretanto, reconhecer essa contribuição não significa atribuir ao Serviço Social a responsabilidade isolada pela prevenção.

Como acolher uma pessoa com pensamentos suicidas?

O primeiro passo é oferecer um espaço protegido, reservado e livre de julgamentos.

Sempre que possível, interrupções devem ser evitadas.

Além disso, o profissional deve demonstrar disponibilidade. Frases apressadas ou respostas automáticas podem fazer a pessoa sentir que seu sofrimento foi minimizado.

Algumas expressões ajudam a iniciar a conversa:

  • “Obrigado por confiar em mim e contar o que está acontecendo.”
  • “Quero compreender melhor como você está se sentindo.”
  • “Esses pensamentos estão acontecendo agora?”
  • “Você sente que corre algum perigo neste momento?”
  • “Existe alguém de confiança que podemos chamar para ajudar?”
  • “Vamos buscar apoio para que você não enfrente isso sozinho.”

Perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não incentiva o suicídio.

Ao contrário, segundo a OMS, a pergunta pode abrir um espaço de escuta e proteção.

Porém, a conversa deve ocorrer com cuidado. O objetivo não é realizar um interrogatório, pressionar a pessoa ou exigir explicações.

O que não deve ser dito durante o atendimento?

Determinadas frases podem produzir culpa, vergonha ou sensação de incompreensão.

Por isso, mensagens moralistas e comparações devem ser evitadas.

Entre os exemplos estão:

  • “Você precisa pensar positivo.”
  • “Existem pessoas em situações piores.”
  • “Isso é falta de fé.”
  • “Você tem tudo e não deveria estar assim.”
  • “Pense na sua família.”
  • “Você só quer chamar atenção.”
  • “Prometa que não fará nada.”

Essas respostas não enfrentam a situação apresentada. Além disso, podem interromper o diálogo justamente quando a pessoa conseguiu pedir ajuda.

Também não é recomendado desafiar, confrontar ou tentar convencer a pessoa apenas com argumentos. Nesse momento, acolhimento e proteção são mais importantes.


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Como identificar se existe uma situação urgente?

O assistente social não precisa estabelecer um diagnóstico clínico. Entretanto, deve reunir informações suficientes para reconhecer sinais de perigo imediato.

A urgência pode ser maior quando a pessoa:

  • afirma que pretende agir naquele momento;
  • relata planejamento definido;
  • possui acesso imediato a meios capazes de provocar sua morte;
  • realizou uma tentativa recente;
  • apresenta intensa agitação, desespero, intoxicação ou alteração da consciência;
  • encontra-se sem apoio e não consegue assegurar a própria proteção;
  • recusa ajuda enquanto permanece em perigo imediato.

Durante a conversa, podem ser feitas perguntas objetivas:

  • “Você está pensando em suicídio agora?”
  • “Você chegou a planejar alguma ação?”
  • “Você tem acesso ao que pensou em utilizar?”
  • “Já aconteceu alguma tentativa anteriormente?”
  • “O que ajudou você a permanecer seguro até aqui?”
  • “Quem poderia estar com você neste momento?”

As respostas devem ser acolhidas sem espanto ou repreensão. Também não devem ser solicitados detalhes desnecessários sobre possíveis métodos.

O que fazer diante de perigo imediato?

Quando houver perigo imediato, a pessoa não deve ser deixada sozinha. Essa é uma orientação expressa do Ministério da Saúde.

Nesse caso, o assistente social deve acionar a equipe de saúde e seguir o fluxo de urgência estabelecido pela instituição.

Quando necessário, também pode ser acionado o SAMU, pelo telefone 192, ou outro serviço local de emergência.

Se o atendimento acontecer em um equipamento sem equipe de saúde, a articulação deve ser realizada imediatamente. A segurança da pessoa precisa ser priorizada.

Além disso, alguém indicado como referência pode ser chamado. Sempre que possível, essa escolha deve ser discutida com a própria pessoa.

Contudo, nem toda família representa proteção. Situações de violência, abandono, rejeição ou conflitos graves precisam ser consideradas antes desse contato.

Portanto, a rede de apoio não deve ser acionada automaticamente. É necessário identificar quem oferece segurança concreta naquele momento.

CAPS, UBS, UPA ou SAMU: para onde encaminhar?

A escolha dependerá da urgência e da organização dos serviços no território.

Os CAPS são serviços comunitários de saúde mental. Eles acolhem pessoas em sofrimento psíquico intenso e situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool ou outras drogas.

A UBS pode acompanhar situações que não apresentam perigo imediato. Além disso, pode articular o cuidado com outros pontos da Rede de Atenção Psicossocial.

Por outro lado, situações de crise, tentativa recente ou perigo imediato exigem atendimento de urgência. Nesses casos, podem ser acionados SAMU, UPA ou hospital.

O encaminhamento, entretanto, não deve consistir apenas na entrega de um endereço. Sempre que possível, deve ocorrer contato prévio com o serviço.

Também é importante verificar se a pessoa possui transporte, acompanhante e condições concretas para chegar ao local.

Qual é o papel do assistente social?

O assistente social pode realizar o acolhimento inicial e identificar fatores sociais relacionados ao sofrimento apresentado.

Além disso, pode analisar condições de moradia, renda, trabalho, violência, vínculos familiares, acesso à saúde e outras situações de desproteção.

Sua atuação também pode envolver:

  • articulação com a Rede de Atenção Psicossocial;
  • contato com serviços da assistência social, saúde, educação e proteção;
  • orientação sobre direitos sociais;
  • identificação de pessoas e espaços de referência;
  • participação na construção do plano de acompanhamento;
  • realização de encaminhamentos responsáveis;
  • acompanhamento social da pessoa e da família;
  • discussão do caso com a equipe multiprofissional.

Entretanto, não cabe ao assistente social realizar diagnóstico psiquiátrico ou assumir funções próprias da Medicina, Psicologia ou Enfermagem.

Da mesma forma, o profissional não deve permanecer como único responsável pelo caso. A prevenção exige atuação multiprofissional e intersetorial.

O sigilo pode ser mantido quando existe risco de suicídio?

O sigilo profissional continua sendo um direito do assistente social e uma proteção para a pessoa atendida.

Entretanto, o Código de Ética admite a quebra quando a gravidade da situação possa causar prejuízo ao usuário, a terceiros ou à coletividade.

Ainda assim, somente as informações indispensáveis devem ser compartilhadas. O número de pessoas informadas também deve ser limitado ao necessário.

Portanto, risco de suicídio não significa autorização para divulgar toda a história da pessoa.

A informação deve ser comunicada apenas aos profissionais e integrantes da rede que precisam participar da proteção e continuidade do cuidado.

Sempre que houver segurança, a pessoa deve ser informada sobre essa necessidade. O profissional pode explicar o que será compartilhado, com quem e por quê.

Essa postura preserva a confiança e evita que a proteção seja transformada em exposição.

Como registrar o atendimento?

O registro profissional precisa ser objetivo, técnico e suficiente para demonstrar as providências adotadas.

Devem ser anotadas as informações relevantes apresentadas pela pessoa, sem julgamentos, interpretações moralistas ou rótulos.

O registro pode incluir:

  • data, horário e local do atendimento;
  • informações relevantes relatadas pela pessoa;
  • sinais observados durante o acolhimento;
  • perguntas essenciais realizadas;
  • existência ou ausência de perigo imediato identificado;
  • profissionais e serviços acionados;
  • orientações fornecidas;
  • pessoa de confiança contatada;
  • forma de encaminhamento;
  • plano de acompanhamento definido.

Quando uma frase for essencial para compreender a gravidade, ela poderá ser registrada com fidelidade e contexto.

Porém, detalhes íntimos sem relação com a intervenção não devem ser incluídos. O prontuário não pode se transformar em reprodução indiscriminada da conversa.

Além disso, os documentos devem permanecer protegidos. O acesso precisa respeitar o sigilo e as normas técnicas da instituição.

O que fazer quando não existe perigo imediato?

A ausência de perigo imediato não significa ausência de sofrimento. Portanto, a pessoa não deve receber apenas uma lista de telefones e endereços.

É importante construir, junto com ela, um plano possível para as horas e os dias seguintes.

Esse planejamento pode incluir:

  • atendimento em CAPS ou UBS;
  • presença de uma pessoa de confiança;
  • retorno agendado ao Serviço Social;
  • acompanhamento pela equipe de referência;
  • acesso a benefícios e direitos;
  • proteção em situações de violência;
  • fortalecimento dos vínculos familiares ou comunitários;
  • orientação sobre canais disponíveis durante crises.

Além disso, o profissional deve verificar se o encaminhamento realmente produziu acesso. Quando possível, o caso precisa ser acompanhado pela rede.

Como evitar a revitimização?

A revitimização acontece quando a pessoa precisa repetir diversas vezes uma experiência dolorosa ou é recebida com dúvida, julgamento e desconfiança.

Para evitá-la, o relato não deve ser repetido sem necessidade. Também é importante compartilhar somente as informações indispensáveis com a equipe.

Além disso, a pessoa deve participar das decisões sempre que isso for possível e seguro.

Sua autonomia não desaparece porque ela está sofrendo. Entretanto, situações de perigo imediato exigem medidas proporcionais de proteção.

O equilíbrio entre autonomia, sigilo e preservação da vida exige análise profissional cuidadosa. Por isso, decisões complexas não devem ser tomadas isoladamente.

A instituição também precisa assumir responsabilidades

O atendimento não depende apenas da boa vontade do profissional. A instituição precisa estabelecer fluxos claros para as situações de crise.

Esses fluxos devem informar:

  • quem será acionado;
  • quais serviços receberão o encaminhamento;
  • como ocorrerá o transporte;
  • quem permanecerá com a pessoa;
  • onde será feito o registro;
  • como acontecerá o acompanhamento posterior.

Também devem ser promovidas capacitações permanentes. Afinal, improvisar diante de uma situação grave aumenta a insegurança de profissionais e usuários.

Quando não houver protocolo, o assistente social poderá propor sua construção com a equipe e a gestão.

Acolher não significa assumir tudo sozinho

Diante do risco de suicídio no atendimento, a primeira resposta deve ser presença, escuta e proteção.

Em seguida, a urgência precisa ser compreendida e a rede adequada deve ser mobilizada.

O assistente social pode contribuir decisivamente ao identificar vulnerabilidades, viabilizar direitos e impedir que a pessoa fique perdida entre os serviços.

Entretanto, sua atuação possui limites. Diagnóstico, manejo clínico e tratamento devem ser assumidos pelos profissionais e serviços competentes.

Portanto, prevenir não significa agir sozinho. Significa acolher com responsabilidade, compartilhar somente o necessário e construir continuidade para o cuidado.

Onde buscar ajuda: diante de perigo imediato, não deixe a pessoa sozinha.

Acione o SAMU pelo 192 ou procure uma UPA ou emergência hospitalar.

O CAPS e a UBS também integram a rede pública de cuidado.

Para apoio emocional, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188.

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