Diário de Campo no Serviço Social: o que escrever, como fazer e modelo prático

Entenda para que serve o Diário de Campo no estágio em Serviço Social, o que registrar, como organizar a escrita, preservar o sigilo e usar um modelo prático.

O Diário de Campo no Serviço Social costuma gerar muitas dúvidas entre estudantes.

Afinal, o que escrever? Basta contar o que aconteceu durante o estágio? Existe um modelo obrigatório? É preciso fazer um registro todos os dias? E como relatar uma situação sem expor os usuários?

Essas dúvidas aparecem porque o Diário de Campo não deve funcionar apenas como uma lista das atividades realizadas.

Ao contrário, ele ajuda a estudante a organizar a experiência, registrar situações importantes, identificar aprendizados e formular questões para discutir nas supervisões acadêmica e de campo.

Além disso, a literatura do Serviço Social destaca o potencial do Diário de Campo como instrumento de documentação e reflexão. Quando a estudante utiliza o registro de maneira contínua, ela consegue observar melhor o cotidiano profissional e criar condições para aprofundar posteriormente sua análise da realidade.

Neste guia, você vai aprender o que escrever no Diário de Campo do estágio em Serviço Social, como fazer o registro passo a passo, quais informações devem aparecer e como organizar um modelo de Diário de Campo.

Importante: não existe um único modelo de Diário de Campo válido para todas as faculdades. Portanto, consulte sempre o manual de estágio, o plano da disciplina e as orientações dos supervisores acadêmico e de campo. O modelo apresentado neste artigo serve como referência e pode ser adaptado.

O que é o Diário de Campo no Serviço Social?

O Diário de Campo é um instrumento de registro utilizado para sistematizar observações, atividades, dúvidas e reflexões relacionadas à experiência no campo de estágio.

Na formação em Serviço Social, ele não deve se limitar a registrar frases como “acompanhei um atendimento”, “participei de uma reunião” ou “observei uma visita”.

O registro ganha mais sentido quando a estudante identifica o que aconteceu, qual era o objetivo da atividade, quais questões surgiram e o que precisa ser aprofundado.

A produção acadêmica sobre o tema mostra justamente esse desafio: muitas vezes o Diário de Campo fica restrito à descrição de atividades, embora tenha potencial para apoiar reflexão, planejamento, avaliação e produção de conhecimento.

Para que serve o Diário de Campo no estágio em Serviço Social?

O estágio supervisionado aproxima a estudante dos espaços sócio-ocupacionais e permite que ela acompanhe o trabalho profissional sob supervisão.

A Política Nacional de Estágio da ABEPSS destaca o estágio como parte do processo formativo e de articulação entre diferentes dimensões da formação profissional.

Nesse contexto, o Diário de Campo ajuda a estudante a:

  • registrar atividades e situações significativas;
  • organizar informações que poderiam ser esquecidas;
  • compreender os objetivos das ações acompanhadas;
  • identificar dúvidas, aprendizados, limites e possibilidades;
  • observar demandas que aparecem no cotidiano;
  • compreender melhor os fluxos da instituição e da rede de serviços;
  • preparar questões para as supervisões acadêmica e de campo;
  • acompanhar o próprio desenvolvimento durante o estágio;
  • reunir elementos que poderão contribuir para relatórios e outras produções acadêmicas.

Portanto, o Diário de Campo não deve ser encarado apenas como uma tarefa para entregar no final do semestre.

Ao mesmo tempo, ele não substitui prontuários, relatórios profissionais, folhas de frequência, plano de estágio ou documentos institucionais. Cada documento possui finalidade própria.


Leia também: Diário de Campo no Serviço Social: o que escrever, como fazer e modelo prático


O que escrever no Diário de Campo do Serviço Social?

Um Diário de Campo de Serviço Social pode registrar data e horário, atividade realizada ou observada, objetivo da atividade, descrição dos fatos relevantes, aprendizados, dúvidas, questões para a supervisão e possíveis desdobramentos. O registro deve preservar o sigilo e seguir o modelo definido pela instituição de ensino.

Esse é o núcleo da resposta. Entretanto, cada parte merece atenção.

1. Data, horário e identificação da atividade

Comece pelas informações básicas.

Você pode registrar:

Data: 10 de agosto de 2026
Horário: 13h às 17h
Atividade: acompanhamento de atividade coletiva de orientação social

Caso a faculdade solicite setor, turno ou carga horária, acrescente esses dados.

Entretanto, não inclua nomes ou outras informações que possam identificar usuários.

2. Atividade acompanhada ou realizada

Em seguida, informe objetivamente qual atividade fez parte daquele período de estágio.

Por exemplo:

  • acompanhamento de atendimento;
  • acolhimento;
  • reunião de equipe;
  • atividade socioeducativa;
  • visita institucional;
  • levantamento de informações;
  • estudo de caso;
  • articulação com a rede;
  • elaboração de material informativo;
  • participação em atividade prevista no plano de estágio.

Evite escrever apenas “atividade do dia”.

Quando você identifica a atividade com clareza, consegue acompanhar melhor a diversidade das experiências desenvolvidas durante o estágio.

3. Objetivo da atividade

Depois, explique para que aquela atividade aconteceu.

O objetivo não deve apenas repetir o nome da tarefa.

Em vez de escrever:

O objetivo foi participar da reunião.

Prefira:

A reunião teve como objetivo discutir as demandas acompanhadas pela equipe, compartilhar informações relevantes e organizar os próximos procedimentos.

Assim, a estudante começa a perceber que cada ação profissional possui uma finalidade.

4. Descrição da experiência

Na descrição, registre os fatos necessários para compreender a situação.

Procure responder:

O que aconteceu? Como a atividade começou? Quais demandas apareceram? Quais orientações ou procedimentos a profissional adotou? Que dificuldades surgiram? Como a atividade terminou?

No entanto, não transforme o Diário de Campo em uma transcrição de tudo o que aconteceu durante quatro ou seis horas de estágio.

Selecione o que realmente ajuda a compreender a experiência.

Por exemplo:

Durante uma atividade coletiva, os participantes apresentaram dúvidas sobre os documentos necessários para acessar determinado serviço. A assistente social explicou os critérios, informou os locais de atendimento e esclareceu as etapas do procedimento. Ao longo da atividade, diferentes participantes relataram dificuldades para compreender as informações disponíveis sobre o serviço.

O registro apresenta fatos relevantes sem expor pessoas.

5. Aprendizados e dúvidas

Além de registrar fatos, anote aquilo que a experiência despertou em você como estudante.

Você pode registrar, por exemplo:

  • algo que passou a compreender melhor;
  • um conceito que precisa pesquisar;
  • uma dúvida sobre determinada política pública;
  • uma questão ética que chamou sua atenção;
  • um fluxo institucional que ainda não compreendeu;
  • uma dificuldade observada na resposta a uma demanda;
  • uma relação entre a experiência e algum conteúdo estudado na graduação.

Nesse sentido, não tenha receio de registrar dúvidas.

O Diário de Campo não precisa demonstrar que a estudante já conhece todas as respostas.

Uma pergunta bem formulada pode revelar um processo de aprendizagem muito mais consistente do que uma conclusão precipitada.

6. Questões para a supervisão

O Diário de Campo também pode funcionar como apoio para a supervisão.

Por isso, transforme algumas dúvidas em perguntas.

Por exemplo:

Por que a equipe utiliza esse procedimento?

Quais normas orientam esse atendimento?

Como funciona a articulação com a rede nessa situação?

Essa dificuldade aparece com frequência no serviço?

Que referências podem me ajudar a compreender melhor essa demanda?

A supervisão direta constitui elemento central do estágio em Serviço Social e possui regulamentação específica pelo CFESS.

Portanto, use o diário para alimentar o diálogo com seus supervisores, e não apenas como um documento destinado à avaliação final.

7. Possíveis desdobramentos

Alguns modelos apresentam campos como “próximos passos”, “encaminhamentos” ou “plano de ação”.

Nesse caso, é importante diferenciar uma possibilidade para discussão de uma decisão profissional autônoma.

Uma estudante pode registrar:

Discutir com a supervisora de campo as dúvidas identificadas e verificar quais procedimentos estão previstos no fluxo institucional.

Essa formulação é diferente de decidir sozinha qual atendimento, encaminhamento ou intervenção deverá ocorrer.

Como fazer um Diário de Campo no Serviço Social passo a passo?

Uma forma simples de organizar o registro é seguir esta sequência:

1. Identifique a atividade.
Registre data, horário, local e tipo de atividade.

2. Explique o objetivo.
Pergunte por que aquela atividade aconteceu.

3. Selecione os fatos importantes.
Evite narrar cada detalhe do dia.

4. Registre o que observou.
Inclua demandas, procedimentos, dificuldades e aspectos institucionais relevantes.

5. Anote dúvidas e aprendizados.
Identifique aquilo que você compreendeu e o que ainda precisa estudar.

6. Formule perguntas para a supervisão.
Transforme dúvidas em questões que possam orientar o diálogo com os supervisores.

7. Revise o registro.
Verifique clareza, sigilo, coerência e adequação às normas da faculdade.

Assim, o Diário de Campo deixa de ser uma simples agenda e começa a acompanhar efetivamente o processo de formação.

Modelo de Diário de Campo para estágio em Serviço Social

A estrutura abaixo pode servir como referência:

CampoO que registrar
Data, horário e localQuando e onde ocorreu a atividade
AtividadeO que você acompanhou ou realizou
ObjetivoPara que a atividade aconteceu
DescriçãoFatos e elementos essenciais da experiência
Aprendizados e dúvidasO que você compreendeu e o que precisa aprofundar
Questões para supervisãoPerguntas para discutir com os supervisores
Possíveis desdobramentosQuestões e possibilidades que precisam de avaliação sob supervisão

Por exemplo:

Data: 10/08/2026
Horário: 13h às 17h
Atividade: atividade coletiva de orientação social

Objetivo: apresentar informações sobre os critérios e procedimentos de acesso a determinado serviço.

Descrição: durante a atividade, participantes apresentaram dúvidas principalmente sobre documentação, critérios e locais de atendimento. A assistente social respondeu às perguntas, explicou o fluxo institucional e apresentou os canais disponíveis para obtenção de informações.

Aprendizado/dúvida: chamou minha atenção a repetição das dúvidas relacionadas aos procedimentos de acesso. Preciso compreender melhor como o serviço divulga essas informações e se essa dificuldade também aparece nos atendimentos individuais.

Questão para a supervisão: as dúvidas sobre acesso aparecem com frequência? Como a equipe identifica dificuldades relacionadas à compreensão das informações?

Perceba que o exemplo não inventa uma intervenção nem apresenta uma conclusão definitiva. Ele registra a experiência e cria questões que poderão ser aprofundadas.

Antes de escrever, aprenda a observar o campo

Um bom Diário de Campo começa antes da escrita.

Se você observa apenas tarefas, provavelmente registrará apenas tarefas.

Por isso, durante o estágio, procure perceber também:

  • qual demanda chegou ao Serviço Social;
  • como a pessoa apresentou essa demanda;
  • qual era o objetivo da atividade;
  • quais procedimentos a profissional utilizou;
  • quais direitos ou políticas públicas aparecem naquela situação;
  • como funcionam os critérios e fluxos institucionais;
  • como o Serviço Social se relaciona com outros profissionais;
  • como ocorre a articulação com a rede;
  • quais dificuldades interferem na resposta institucional;
  • quais perguntas aquela experiência despertou.

Por exemplo, uma pessoa pode procurar o serviço apenas para pedir uma informação. Entretanto, durante o atendimento podem aparecer dificuldades relacionadas ao acesso aos serviços, à compreensão das regras institucionais ou ao conhecimento de direitos.

A estudante não precisa tirar uma conclusão imediata. Primeiro, deve observar, registrar, perguntar, pesquisar e discutir na supervisão.

Como preservar o sigilo no Diário de Campo?

O cuidado com informações dos usuários precisa acompanhar toda a formação profissional.

O Código de Ética do/a Assistente Social dedica dispositivos específicos ao sigilo profissional e à proteção das informações relacionadas aos usuários.

Por isso, evite nomes, iniciais, números de documentos, endereços, telefones e detalhes que permitam reconhecer uma pessoa.

Além disso, lembre-se de que trocar um nome por uma letra nem sempre garante anonimato.

Veja:

Evite:

M.A.S., 42 anos, moradora da Rua X, procurou o Serviço Social após sofrer violência do marido.

Prefira:

Uma usuária adulta procurou o serviço apresentando demanda relacionada a uma situação de violência. A profissional realizou o atendimento conforme os procedimentos institucionais e avaliou, junto à usuária, possibilidades de acesso à rede de proteção.

O segundo exemplo preserva as informações necessárias para compreender a atividade sem reproduzir dados que identifiquem a pessoa.

Também evite copiar prontuários, fotografar documentos, armazenar informações sigilosas em aplicativos pessoais ou reproduzir detalhes íntimos que não tenham relevância para o aprendizado.

Erros comuns ao fazer o Diário de Campo

Alguns problemas aparecem com frequência nos registros.

Transformar o diário em agenda

Cheguei às 13h. Depois participei de um atendimento. Às 15h houve uma reunião. Às 17h fui embora.

A sequência informa o que aconteceu, mas pouco contribui para compreender a experiência.

Fazer julgamentos sobre os usuários

Evite expressões como:

usuário difícil;
família desestruturada;
mãe negligente;
pessoa acomodada;
usuário sem interesse.

Esses rótulos não explicam a realidade.

Em vez disso, descreva fatos e condições concretas.

Copiar textos teóricos sem relacioná-los ao estágio

O Diário de Campo não melhora simplesmente porque recebeu uma citação.

A teoria precisa ajudar a compreender aquilo que você observou.

Escrever tudo apenas no final do semestre

Quando a estudante tenta reconstruir várias semanas de estágio de uma só vez, aumenta a possibilidade de esquecer situações, misturar acontecimentos e produzir registros superficiais.

Quando fazer os registros do Diário de Campo?

Sempre que possível, faça anotações próximas ao momento da experiência, respeitando as regras da instituição.

Uma rotina possível é:

no mesmo dia: faça notas breves e protegidas;

em até 24 ou 48 horas: organize o registro completo;

semanalmente: releia os registros e destaque dúvidas;

antes da supervisão: selecione questões que precisam de discussão;

ao longo do semestre: observe situações que se repetem.

Entretanto, se a faculdade determinar outra periodicidade, siga a orientação institucional.

Diário de Campo e análise crítica são a mesma coisa?

Não.

A descrição registra fatos relevantes. Já a análise procura compreender o significado desses fatos e relacioná-los aos conhecimentos construídos durante a formação.

Esse movimento é tão importante que merece um conteúdo próprio.

Por isso, depois de aprender o que escrever e como organizar o Diário de Campo, o próximo passo é entender como transformar a descrição em reflexão fundamentada.


Leia também: Diário de Campo no Serviço Social: como passar da descrição para a análise crítica?


Perguntas frequentes sobre Diário de Campo no Serviço Social

Existe um modelo obrigatório de Diário de Campo?

Não existe um único modelo válido para todas as instituições. Cada curso pode definir sua própria estrutura. Portanto, siga o manual de estágio e as orientações dos supervisores.

É preciso escrever no Diário de Campo todos os dias?

A periodicidade depende das regras da instituição de ensino. Entretanto, registros feitos próximos à experiência tendem a preservar melhor informações e dúvidas importantes.

O Diário de Campo precisa ter referências bibliográficas?

Isso depende da orientação acadêmica e do tipo de registro solicitado. Mais importante do que inserir citações em todos os registros é utilizar referências que realmente ajudem a compreender a experiência.

Posso colocar o nome do usuário no Diário de Campo?

Evite informações que identifiquem direta ou indiretamente os usuários. O cuidado com o sigilo deve fazer parte da formação desde o estágio.

Diário de Campo é apenas para estudantes?

Não. A literatura do Serviço Social também discute o Diário de Campo e a documentação como recursos que podem contribuir para reflexão, sistematização, planejamento e avaliação do trabalho profissional.

O Diário de Campo como instrumento de aprendizagem

O Diário de Campo ganha sentido quando deixa de funcionar como uma simples relação de tarefas.

Ao registrar com regularidade, a estudante desenvolve uma observação mais atenta, organiza informações, identifica dúvidas e reúne elementos para compreender melhor a realidade encontrada no estágio.

Além disso, a releitura dos registros pode mostrar situações recorrentes que passaram despercebidas no primeiro momento.

Portanto, não escreva apenas para lembrar o que aconteceu.

Pergunte também:

Por que essa atividade aconteceu? O que eu observei? O que ainda não compreendi? Que questão preciso levar para a supervisão?

Esse movimento transforma o registro em parte efetiva do processo de formação.


Referências para consulta

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO E PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL – ABEPSS. Política Nacional de Estágio da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. 2010.

BRASIL. Lei nº 8.662, de 7 de junho de 1993. Dispõe sobre a profissão de assistente social.

BRASIL. Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008. Dispõe sobre o estágio de estudantes.

CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Código de Ética Profissional do/a Assistente Social. 1993.

CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL – CFESS. Resolução nº 533, de 29 de setembro de 2008. Regulamenta a supervisão direta de estágio no Serviço Social.

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